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terça-feira, 10 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27809: O Spínola que eu conheci (39): ...Em Sinchã Lomá, no regulado do Corubal, na vistoria de uns malfadados abrigos de autodefesa (Rui Felício, "um alferes que não era parvo de todo")


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante. E o piloto nunca escondeu a admiração que tenha pelo ilustre militar que se sentava à sua esquerda...

Foto (e legenda): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa   Sinchã Lomá, no regulado de Corubal, a sudoeste de Galomaro e Dulo Gengéle...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > 2º semestre de 1969 > Sinchã Mamajã... Algures, numa tabanca do regulado de Badora, já no limite sul, fazendo fronteira com o regulado do Corubal; uma tabanca em autodefesa, reforçada pelo 3º Gr Comb, com os respetivos furrieis mlicianos, "periquitos": na foto o fur mil arm pes inf  Henriques, junto a um dos abrigos e posando com o RPG 2 para a fotografia... 

O fotógrafo foi o Arlindo Roda, que também era deste Gr Comb, o grande fotógrafo da CCAÇ 12, a par do Humberto Reis (fur mil or esp, 2º Gr Comb, o nosso "cartógrafo").

Foto  © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Carta do Xime (1955) (Escala 1/50 mil) > Subsetor de Bambadinca > Detalhe > Tabancas fulas em autodefesa, Samba Juli, Sare Adé, Sinchã Mamajá e Sansacuta, situadas entre os rio Quéuol e Timinco, a leste da estrada Bambadinca-Mansambo, na fronteiras entre os regulados de Badora e Corubal.

Sansancuta fazia parte dum eixo de tabancas no limite sul do regulado de Badora, no Sector L1, e que funcionava como uma espécie de pequena muralha da China, cortando as linhas de infiltração das forças da guerrilha que eventualmente se podiam  para o interior daquele regulado a partir do rio Corubal (infiltração facilitada pela retirada de Madina do Boé, Béli, Cheche, Madina Xaquili...) Estavam ali reagrupados os habitantes de três tabancas, uma das quais Sare Ade cuja população, sobretudo os mais jovens, não se conformou com a ordem de deportação dada pelo comando militar de Bambadinca, tendo fugido para o nordeste (Gabu) e inclusivamente para o Senegal, que também é chão fula.

A sudeste ficavam Afiá e Candamã, já no regualdo de Corubal (tal como a Sinchã Lomá  desta história, a escassos quilometros, a sul do rio Biesse), j+a no setor de Galomaro, Sector L5, criado por essa altura).

Lugares que continuam no nosso imaginário, ao fim de mais de meio século, fazendo parte das nossas geografias emocionais...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. O general Spínola que conhecemos na Guiné, foi um cabo de guerra, carismático, populista, justiceiro, amado e odiado, e que os capitães do MFA utilizaram como "figura de proa" para, na Junta de Salvação Nacional, o Exército de apresentar, ao país, em 25 de Abril de 1974, como os salvador da Pátria (mais uma vez...).

Confesso que, no CTIG e depois cá, na nossa santa terrinha, nunca morri de amores por ele... Foi meu comandante na Guiné, tive que lhe bater a pala... Visitou-me, no meu buraco, no Rio Undunduma, no dia 1 de janeiro de 1971, para me desejar um bom ano... o que naturalmente sensibiliza qualquer soldado... Mas eu continuei a chamar-lhe o "Herr" Spínola... por causa do sua pose prussiana e do seu ridículo monóculo... 

Hoje olho esse tempo com o "monóculo do humorista" e,  por incrível que possa parecer, já não tenho  qualquer animosidade para o nosso general... Respeito os mortos, é um princípio que tenho (e cultivo no blogue). O que não me impede de ter uma opinião crítica sobre o seu "deve-e-haver", em vida, como homens, portugueses, cidadãos, políticos, militares, escritores, reis, rainhas, presidentes da república, governantes, santos, heróis, etc.

Dito isto, pergunto-me: conhecer ? Não se pode dizer que o conhecemos... Muitos de nós viram-no, ao longe. No palanque, nas receções de boas vindas ao CTIG, em Brá ou no Cumeré. Ou até lhe bateram a pala numa visita relâmpago por ocasião das "festas de Natal e Ano Novo" (em que estávamos quase sempre de prevenção).

Dizer que conhecemos o Comandante-chefe e Governador António Spínola é uma força de expressão. Os oficiais superiores, comandantes de batalhão, esses (com exceção dos de cavalaria e tropas-especiais) tinham medo que se pelavam, dele e das suas visitas-surpresa: tinha fama de trazer sempre um "par de patins" para correr com aquele ou aqueles a quem ele já tinha "feito a folha" em Bissau...

A malta da Força Aérea (pilotos e mecânicos dos helis) também o admiravam. O Jorge Félix já aqui o reconheceu publicamente.

Os soldados em geral adoravam-no por  ser "justiceiro" e por se sentirem lisonjeados com os seus discursos inclusivos sobre o "bom povo português"... Os fulas, idem aspas... Não era ele o "Caco Baldé", segundo a "vox populi"?

Quanto aos milicianos... bom, esses, tinham um sentimento ambivalente: uns gostavam dele, outros nem tanto, mas a maior parte tinha que o gramar. Um camarada, com grande experiência operacional como o Torcato Mendonça (1944-2021) disse dele. "Encontrámo-nos diversas vezes. Confesso que sempre vi naquele homem, trinta e quatro anos mais velho, o Chefe Militar. Obstinado, de forte coragem e frontalidade, teimoso, determinado em vencer o inimigo mas não de qualquer maneira."

Embora crítico, o nosso querido Torcato também escondia a sua admiração por ele... Nessa época, em que lá andámos (1968, 1969, 1970), ainda eram poucos os milicianos que tinham consciência política, embora bastantes já fossem contra aquela merda de guerra... De resto, "tropa é (era) tropa", sempre "foi assim" em todo o lado, até um dia, e que se invertem as hierarquias, em cima o soldado, em baixo o general... (Isso só acontece de 100 em 100 anos.)

A todos o Com-Chefe  exigia que dessem o litro e meio... E está tudo dito. Até o Rui Felício (1944-2026), se "acagaçou" com a sua sempre espalhafatosa visita (vinha sempre de héli, e neste caso com o seu piloto preferido...) a Sinchã Lomã (alguém sabe onde isso fica? Não é, por certo, na serra de Arganil, é a 4 mil quilómetros mais abaixo, depois do trópico de Câncer...).

Releiam esta crónica, de 2006 (há 20 anos!), que ele escreveu para malta do bairro Norton de Matos, em Coimbra  (e sobretudo para nós, seus camaradas da Guiné). É mais uma joia de humor castrense... E um belo retrato tanto do autor como da sua personagem. Devem-se ter encontrado há dias lá no Olimpo dos deuses e dos heróis. Espero que aos dois se tenha juntado o António Lobo Antunes (1942-2026), que adora ouvir histórias de guerra (e  de sexo).



Sinchã Lomá, regulado do Corubal: O Spínola e eu, que era um alferes com medo de levar uma porrada e perder o direito às férias

por Rui Felício (1944-2026)


Chegado a Sinchã Lomá, iniciei os trabalhos, dando prioridade, por questões de segurança própria, à organização da defesa da tabanca, estendendo arame frapado em redor do perímetro idealizado, e marcando os locais dos futuros abrigos, que decidi que fossem oito.

Ao mesmo tempo, seleccionei trinta recrutas entre os homens da população e incumbi o furriel Coelho de lhes dar alguma instrução militar e manuseamento do armamento que lhes iria ser distribuído. O objectivo era criar condições de autodefesa à população, evitando assim mais um destacamento militar do exército para o qual não havia efectivos suficientes.

Enquadrada a tabanca e os objectivos, passo à história propriamente dita.

Dada a experiência anterior já atrás referida, demorámos menos de metade do tempo que tínhamos gasto nas tabancas anteriores, para dar a missão como concluída. Para isso contribuiu também o dinamismo do chefe de tabanca que, ao contrário do de Dulo Gengele, colaborou activamente com a tropa, mobilizando praticamente toda a população para os trabalhos de construção dos abrigos.

Para quem não saiba, os abrigos eram buracos rectangulares, escavados até cerca de 1,20 de profundidade, em cujos cantos se colocavam quatro bidons cheios de terra que serviriam de pilares, nos quais iriam assentar os troncos de palmeira que constituíam a estrutura do telhado.

Feito o esqueleto do abrigo, cobria-se o telhado com uma camada de terra de cerca de 30 cm.

Tudo isto, sem cimento, nem máquinas e com rudimentares ferramentas (pás, picaretas, martelos, pregos, serras manuais e pouco mais…). E um Unimog que com o seu guincho eléctrico era de extrema utilidade. Tudo o resto, à base de esforço braçal…

Porque eu sabia que após a conclusão da missão, regressaria para a sede da Companhia, interessava-me despachar-me o mais rapidamente possível.

Por isso, logo que achei que o trabalho estava feito, mandei um rádio para a Companhia, solicitando que alguém fosse vistoriá-lo para me ser dada a ordem de regresso.

Alguns dias depois, finalmente ouço o ruído de um helicóptero aproximando-se e fiquei ansioso para que tudo fosse visto e achado conforme.

O Héli pousou, pilotado pelo meu grande amigo de sempre, o alferes Jorge Félix, mais tarde um quadro importante da RTP do Monte da Virgem em V. N. de Gaia.

Fiquei, porém, surpreendido pelas altas patentes que o acompanhavam! O Spínola, o coronel Hélio Felgas (Cmdt do Agrupamento de Bafatá ) e o capitão Almeida Bruno, à época oficial às ordens do Velho.

O Spínola dirigiu-se-me, cumprimentou-me e encaminhou-se para o abrigo mais próximo, consertando o monóculo e apoiando-se ritmadamente no seu bastão, à medida que ia caminhando.

Olhou, mirou, deu uma volta ao abrigo e, com ar admirado, deu uma segunda volta agora em sentido contrário… Dirigiu-se a um outro e repetiu a vistoria.

Batia nervosamente várias vezes com o bastão na terra poeirenta, olhava com ar inquisidor o Capitão Bruno e o Coronel Felgas e fez-me sinal para me aproximar… Pelo ar dele, senti-me pequenino e inseguro, embora sem ainda descortinar a razão da sua indisposição.

Olhou-me fixamente nos olhos, ficou em silêncio durante uns segundos e depois as palavras saiam-lhe da boca como se fossem pedras:

 – Vocé é o alferes mais original da Guiné!

A frase seguinte, continha a explicação da sua irritação:

–  Para que raio servem abrigos sem qualquer entrada?!

Nem me deu qualquer hipótese de resposta. Virou-me as costas e foi cumprimentar demoradamente o chefe de tabanca ao lado do qual se aglomeravam homens, mulheres e a criançada da aldeia.

E começou a arengar meia dúzia de frases feitas que ele adorava proferir :

– Vocês são o bom povo da Guiné, donos desta bela terra, que se desenvolverá harmonicamente sob a bandeira portugues... (E etc… etc… etc…).

Entretanto, enquanto decorria a parte política, o capitão Almeida Bruno falou comigo, também ele intrigado, e perguntou-me porque razão eu mantinha os abrigos fechados, como se não tivessem portas de entrada.

Expliquei-lhe que os queria manter limpos e apresentáveis para a vistoria, estando previsto que, logo que aprovado o trabalho, eu retiraria uma série de grades que estavam colocadas nas futuras entradas dos abrigos, para ficarem definitivamente operacionais. É que, se o não tivesse feito, à semelhança do que se tinha passado nas outras tabancas onde tinha estado, a população metia lá dentro os animais domésticos (cabritos, galinhas, patos, etc.) que conspurcavam aquilo tudo. Para evitar isso, fechei provisoriamente os abrigos…

O Almeida Bruno, conhecedor profundo do estilo do general, disse-me que essa explicação não servia, e o Caco estava chateado que nem um perú. E que isso podia redundar em qualquer coisa desagradável para mim…

E aconselhou-me a ir explicar ao Spínola antes de ele embarcar de novo no Heli, o seguinte: 

(i) que eu tinha andado a ler uns livros sobre a guerra do Vietname; 

(ii) e que, num desses livros tinha ficado a saber que os americanos construíam uma grande quantidade de abrigos falsos, onde de facto não iriam estar quaisquer efectivos militares; 

(iii) e que o faziam para que o inimigo, quando atacasse, dispersasse o fogo por inúmeros pontos, muitos dos quais seriam meramente fictícios, diminuindo assim o poder de fogo e a sua eficácia; 

e, finalmente, 

(iv) que fora por isso que tinha decidido levar à prática a referida táctica.

– Por azar meu, logo aqueles que o general Spínola tinha vistoriado!

Estudada a lição, quando o Spínola, depois de discursar à população, se aproximou de mim para se despedir, pedi-lhe licença para lhe explicar o que atrás ficou dito. Não fez qualquer comentário e entrou no Héli que de imediato levantou voo, deixando uma enorme nuvem de pó sobre as nossas cabeças…

E um grande aperto no meu coração… O pior castigo que poderia sofrer era o de me cancelarem as férias na Metrópole, já programadas para o Novembro próximo…

Recebi, uma semana depois, ordem de regresso à base e logo que cheguei, perguntei ao Capitão se havia novidades a meu respeito… Disse-me que não… Pelo contrário, o Felgas até tinha elogiado o meu trabalho. Mas nada comentou àcerca do incidente com o Spinola.

Enfim, do mal o menos… Ausência de notícias, boas noticías  – costuma dizer a sabedoria popular.

Andava cansado e preocupado com tudo isto e pedi ao Capitão que me deixasse ir espairecer uns dias a Bissau, a pretexto de uma qualquer consulta externa que o pudesse oficialmente justificar.

Ao contrário do que era hábito, o Capitão condescendeu e, dois dias depois rumei e Bafatá e daqui apanhei uma boleia num velho Dakota, para Bissau.

Depois de aterrar em Bissalanca, fui à messe de oficiais da Força Aérea e ali encontrei o Jorge Félix. Enquanto bebericávamos um copo, contou-me o que se passou no helicõptero, logo que levantaram voo de Sinchã Lomá.

 – Eh pá… Tiveste muita sorte! – começou por me dizer… – O Velho estava com cara de poucos amigos quando olhou para os malfadados abrigos, mas logo que se sentou no helicóptero, depois de ouvir a tua versão táctica, olhou de soslaio para o banco a seu lado onde estava o Almeida Bruno e disse-lhe:

– Oh, Bruno,  aponta aí! Este alferes não é parvo de todo!

E pronto, a minha ansiedade distendeu-se... Percebi que, graças ao capitão Almeida Bruno, as minhas férias de Novembro mantinham-se intactas… Como de facto se mantiveram!

Rui Felício (1944-2026)
Ex-Alf Mil Inf
3º Grupo de Combate
CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70

(Texto originalmente publicado na série "Estórias de Dulombi", em 2006, mas na altura, há 20 anos, nem um simples comentário mereceu) (*ª)

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de 

Último poste da série > 1 de dezembro de 2024> Guiné 61/74 - P26222: O Spínola que eu conheci (38): Nunca o vi com um fotógrafo atrás, no mato (António Martins de Matos / Luís Graça / Valdemar Queiroz / Virgílio Teixeira)... Havia um fotógrafo fardado, que tirava fotos de forma muito dsicreta (Domingos Robalo)

(**) Vd. poste de 27 de outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1217: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (6): Sinchã Lomá, o Spínola e o alferes que não era parvo de todo

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Guiné 61/74 - P24626: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (9): Requiem para um paisano



Foto nº 1



Foto nº 2

Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > 1969 > Sinchã Mamajã... Algures, numa tabanca do regulado de Badora, já no limite sul, fazendo fronteira com o regulado do Corubal; uma tabanca em autodefesa, reforçada pelo 3º Gr Comb, com os respetivos furrieis mlicianos, "periquitos": o Luciano Almeida (foto nº 1) e o Luís Graça Henriques (foto nº 2), junto a um dos abrigos e posando com o RPG 2 para a fotografia... O fotógrafo foi o Arlindo Roda, o grande fotógrafo da CCAÇ 12, juntamente com o Humberto Reis,

Fotos  © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Leste >  Regiáo de Bafatá > Sector L1  > BART 2917 (Bambadinca, 1970/72  >  Bambadinca  > 1970 > Uma das poucas fotos que temos do malogrado fur mil at inf Luciano Severo de Almeida,  do 3º pelotão da CCAÇ 12, que morreria, em circunstâncias desconhecidas (mas presumivelmente violentas), depois de regressar à metrópole.  

Foto (e legenda): © Vitor Raposeiro (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


À memória do Luciano Severo de Almeida 
(que terá morrido de morte violenta, já como paisano), 
 meu camarada da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 
(Contuboel e Bambadinca, 1969/71)
e de mais camaradas da Guiné, desconhecidos,
que morreram, de morte violenta,
por homicídio, suicídio ou acidente,
já depois do regresso á pátria.


Requiem para um paisano

por Luís Graça (*)


Disseram-me que tinhas morrido, meu infortunado camarada,  já depois do nosso regresso a casa. Talvez nos finais dos anos 70 do século passado, não posso precisar.

Morrido, "lerpado", para usar o nosso calão de caserna, bruto e feio. "Lerpado", assim, sem mais nada, sem uma palavra,  sem uma oração, talvez até sem um ai nem um ui, sem um grito de dor, sem um ato de contrição, sem direito sequer  a um último desejo, um cigarro, uma palavra de despedida... Imagino ou suspeito  que nem sequer tinha havido um xeque-mate, do tipo "a bolsa ou a vida!"... 

"Lerpado", morrido, de morte matada, morrido, como um cão, com um tiro na nuca, como os cães que abatemos (dezenas!|), uma noite, em Bambadinca, nessa alucinante e sangrenta  "Noite das Facas Longas", lembras-te?!... (Precisávamos de dormir, e eles eram uma alcateia selvagem de vira-latas, de todos os tamanhos e feitios, de todas as cores,  famintos, sem-abrigo,  que todas as noites invadiam a parada, e uivavam às nossas janelas!)

Disseram-me que tinhas sido encontrado, morto, longe da nossa Guiné, dessa terra verde e vermelha que tu tanto amaste, longe da tabanca de  Sinchã Mamajã, e da morança da tua bela e sensual Fatumatá, de mama firme, que se escapulia para a tua morança, nas noites de cio e lua cheia, em que uivava a hiena (o "lobo", para os guineenses)… 

Longe do tarrafo do Geba, da Ponta Varela e do Poindom, do Mato Cão, dos Nhabijões, da Ponta do Inglês, da Missão do Sono, da Ponte do Udunduma, da orla da bolanha, do poilão, do bagabaga, do tarrafe… Longe de Bambadinca, de Badora, do Corubal,,,

Onde, afinal ? Não longe do lugar dos teus verdes anos, não longe do arco-íris do teu céu de menino, quiçá perto do estuário do teu Tejo, numa qualquer praia do mar da Palha, ou numa valeta suja de uma rua escura da tua cidade (S
e bem recordo, moravas no Afonsoeiro,  Montijo, na Rua Damão, rodeada de outras ruas com topónimos ultramarinos, Luanda, Ilha do Príncipe, Ilha de  São Tomé, Moçambique, Cabo Verde),,,

Em que encrencas te meteste, meu irmão ?  E com quem jogavas à lerpa, camarada ? Ou em que emboscada caíste, meu amigo ?  Ou foi  o novo ouro branco ?

Que morte tão crua, a ser verdade, oxalá fosse boato a notícia de fait-divers que alguém leu no jornal, a notícia de uma morte em que eu não te (re)vejo, nem nenhum de nós, teus velhos camaradas de Bambadinca.

Oxalá tenhas simplesmente desaparecido, emigrado!... Oxalá, tenhas sido sequestrado, tenhas mudado de código postal ou até de identidade, sempre era menos mal. Sinal ao menos, que estavas vivo, algures!... E poupavas-me este requiem, o teu elogio fúnebre, que é a pior das missões que se pode pedir a um camarada de armas.

Oxalá,  Inshallah, Enxalé!

Disseram-me (mas eu não quis crer) que tinhas sido morto, sem honra nem glória, depois de cumprido o teu dever para com a Pátria que te foi madrasta, cruel Jocasta.

Já depois da última nau da Índia ter naufragado no mar da Palha da tua infância, já muito depois dos últimos guerreiros do império terem feito o espólio de todas as guerras e o relatório da sua errância desde Quinhentos.

No século passado, meu amigo, no século transato, meu irmão!...

Lembro-me de o velho Uíge, navio da Companhia Colonial de Navegação, nos ter devolvido a terra, à nossa cidade e capital. Nas praias da Rocha Conde d' Óbidos, no cais de todas as saudades, no cais de pedra donde havíamos partído em 24 de maio de 1969, quase às escondidas, vindos do comboio noturno e soturno de Santa Margarida, do Campo Militar de Santa Margarida.

Não sei quem te esperava nesse dia 22 de março de 1971, mas seguramente os mesmos entes queridos (pais, manos, namoradas, noivas, mulheres...) que nos esperavam,  a quase todos nós, que ali, no cais, passávamos à condição de paisanos, depois de nos depedirmo-nos, a bordo, na noite anterior,  bebendo o último gole de uísque sem gelo e fazermos promessas de amizade para sempre. 

Vestidas as calças à boca de sino, e as camisas às florinhas que estavam na moda, na época,  regressávamos ao doce lar, com as exóticas bugigangas compradas c
om o patacão sujo da guerra em Bissau, na loja do libanès Taufik Saad.

Regressávamos da guerra, com a morte na alma e mazelas no corpo, num navio, quase fantasma,  da marinha mercante,  o T/T Uíge.

Como se tudo continuasse como dantes e a vida corresse normalmente, "contra os ventos da história" (como então se dizia), nessa viagem de regresso à pátria servia-se a bordo, na chamada classe turística, reservada aos sargentos: (i) uma sopa de creme de marisco; (ii) seguido de um prato de peixe (pescada à baiana); e (iii) um prato de carne (lombo estufado à boulanger)... sem esquecer (iv) a sobremesa: a bela fruta da época, o bom café colonial, o inevitável cigarro a acompanhar um uísque velho, antes de mais uma noitada de lerpa ou de king...

Não sei se "lerpaste" nessas noites, se perdeste (ou ganhaste) algum patacão... Sim, esse 17 de março de 1971, em que largámos do estuário do rio Geba,  foi o primeiro dia do resto das nossas vidas...  E, nas costas da ementa de um desses jantares a bordo, talvez o do último dia, deixámos escritos os nossos nomes e moradas. 

Quatro de nós, que iam na classe turística,  já não estão mais entre os vivos, tu, o sargento Piça, o sargento Vieira,  o furriel António Branquinho... E outros mais, que dos mortos rapidamente se perde a conta... 

Bolas, já lá vai meio século depois do nosso regresso... E todos jurámos ficar amigos... para sempre !

Regressávamos ao lar e à rotina das nossas vidas, pequenas, insignificantes. E a uma outra guerra, a da lufa lufa do quotidiano, com outras picadas, com outras minas e armadilhas, com outras emboscadas e golpes de mão.

Tu tinhas um lar, todos tínhamos um lar, uma família, alguns um emprego, muitos uma namorada ou uma noiva ou uma mulher e até filhos à sua espera… Mas eu…, o que sabia eu de ti ? O que sabíamos nós uns dos outros ? E dos nossos sonhos de meninos que foram obrigados a crescer tão cedo e tão rápido ?

Muito pouco, afinal… Casaste ? Tiveste filhos ? Não, não deves ter tido tempo e pachorra para ser pai, um bom pai,   e muito menos avô babado…  

Não, nunca mais voltei a ver-te,  depois desse dia 22 de março de 1969, ao longo de todos estes anos, em que tantas coisas aconteceram, para o pior e o melhor, na nossa Pátria...  
Uma palavra, repara, que saiu do léxico dos tugas, e já não se usa mais, a  Pátria... Afinal o que é a Pátria, camarada ? Ou que era ? 

Em 1994, encontrámo-nos,  alguns de nós, em Fão, Esposende, mas tu já não estavas no rol dos vivos... Julgo que foi aí que soube, pela primeira vez, da notícia de que tinhas morrido (segundo constava)...

A imagem mais forte, não a última, que retenho de ti, é a do menino e moço que saiu, fardado, garboso,  bem escanhoado, da casa de seu pai e sua mãe...É a imagem do puto reguila, quiçá rebelde, temperamental, belicoso mas generoso, da margem sul do Tejo. Com jeito para o desenfianço, o desenrascanço, que a vida era dura para os homens da CCAÇ 12, brancos e pretos. E com lábia para as bajudas de mama firme e para os "djubis", os putos da companhia, alguns ainda meninos de sua mãe.

Retenho ainda,  sem qualquer sentimento de pudor nem de culpa, 
a imagem do nosso patético duelo, numa noite de desvario,  no bar de sargentos de Bambadinca, tendo por arma, letal, uma garrafa de VAT 69. (Ou era Jonhnie Walker ? Ou White Horse, a tal do cavalinho branco ? Já não me lembro do rótulo, sei apenas que era scotch, e do bom, daquele que vinha From Scotland for the Portuguese Armed Forces with love!, da Escócia para os tugas com amor.)

Um duelo de morte, gole a gole, até ao gole ou golpe final, em menos de 15 minutos!... Com árbitro e tudo, apostas a dinheiro, mirones e claques de apoio, como mandavam as regras dos apanhados do clima de Bambadinca!... Já não sei quem ganhou: seguramente perdemos os dois...

Apanhados do clima, cacimbados, dizes bem, Exaustos, usados e abusados, filhos de Sísifo, filhos de um deus menor, condenados ao mais insano dos suplícios, uma guerra a que chamavam de baixa intensidade,  de contraguerrilha, do gato e do rato, de contrassubversão…

Não, não, era a roleta russa, ninguém tinha pistolas de tambor, era o fado lusitano, era o fado da Guiné, meu camarada, meu amigo, meu irmão.

Era a nossa triste condição, era a nossa quiçá estúpida, mas viril, maneira de matar… o tempo, o escasso tempo de lazer em tempo de guerra, cronometrado, o tempo de espera entre uma operação e outra, o tempo de espera que podia ser entre a vida e a morte, que estava quase sempre emboscada nos trilhos que levavam do Xime à Ponta do Inglês. 

Era a insanidade mental, era a raiva, traiçoeira, era a lucidez da loucura a tomar conta de nós….

Foi esse fado que te matou, essa maldita toxina, essa adrenalina, que trouxeste das águas do Geba e do Udunduma, e das bolanhas do Corubal, do cacimbo das manhãs de Sinchá Mamajá, e que te impedia de parar para pensar, simplesmente parar, simplesmente pensar, simplesmente viver, simplesmente respirar à tona de água. meu irmão, meu camarada, meu amigo.

Foi o sobressalto da vida, foi a vida em sobressalto, foi a vida em saldo, foi a alma em carne viva, foi a dor em lume brando... 
Foi isso que te matou. No pós  guerra, na guerra dos paisanos.

Foi isso, foi a Guiné que te matou. Ao retardador.

© Luís Graça (2015). Revisto em 10 de julho de 2025.



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Carta do Xime (1955) (Escala 1/50 mil) Subsetor de Bambadinca > Detalhe > Tabancas fulas em autodefesa, Samba Juli, Sare Adé, Sinchã Mamajá e Sansacuta, situadas entre os rio Quéuol e Timinco, a leste da estrada Bambadinca-Mansambo. na frinteiras entre os regulados de Badora e Corubal 
Sansancuta faz parte dum eixo de aldeias estratégicas, como se diz no Vietname, no limite sul do regulado de Badora, no Sector L1, e que funciona como uma espécie de pequena muralha da China, cortando as linhas de infiltração das forças da guerrilha que eventualmente se dirijam para o interior daquele regulado a partir do rio Corubal (infiltração facilitada pela retirada de Madina do Boé, Béli,  Ché-Ché, Madina Xaquili...) Estavam ali reagrupados os habitantes de três tabancas, uma das quais Sare Ade cuja população, sobretudo os mais jovens, não se conformou com a ordem de deportação dada pelo comando militar de Bambadinca, tendo fugido para o nordeste (Gabu) e inclusivamente para o Senegal, que também é chão fula.

Lugares que continuam no nosso imaginário, ao fim de mais de meio século, fazendo parte das nossas geografias emocionais...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2023)
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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 30 de agosto de 2023 > Guiné 61/74 - P24599: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (8): Bonjour tristesse!

(...) Nada fazia prever, quando o Teodoro nasceu, que estaria predestinado a ser padre. Pelo menos não havia nenhum sinal exterior dessa predestinação, desse chamamento de Deus.

− Nenhum rasto de estrela ou cauda de cometa a apontar para a minha casinha de xisto. (Apesar de tudo, sempre era melhor do que a loja da vaca e do burro, em cuja manjedoura nascera o Menino Jesus, em Belém.) − comentaria ele, com um misto de ironia e melancolia, mais tarde, em 2008, quarenta anos depois da sua partida para França, onde fixara residência. Nunca mais voltara à sua aldeia, na Serra da Lousã, a não ser então, depois da reforma. (...)


Postes anteriores da série "Contos com mural ao fundo":

21 de agosto de 2023 > Guiné 61/74 - P24572: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (7): Sozinho, como um cão

(...) Estive no seu leito de morte. Um fatal cancro dos pulmões, porventura curável nos nossos dias, roubara-lhe a vida, há uns trinta anos atrás. Teria hoje os seus 80 anos, se fosse vivo. Morreu jovem, demasiado jovem.

Era um dos meus heróis da adolescência, o Doc. Tinha lentamente recuperado a alegria de viver, depois de uma grave crise que ele próprio qualificara de “existencial”. (...)


26 de julho de 2023 > Guiné 61/74 - P24504: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (5): O "Felgueiras", de 1º cabo hortelão a comendador (1943-2017) (Parte I)

27 de julho de 2023 > Guiné 61/74 - P24506: Contos com Mural ao Fundo (Luís Graça) (6): O "Felgueiras", de 1º cabo hortelão a comendador (1943-2017) - II (e última) Parte

(...) Conhecemo-nos, por um mero acaso, num casamento em Braga, a terra dos arcebispos (um dos quais, o Dom Lourenço Vicente, do séc. XIV, meu longínquo conterrâneo, senhor das terras da Lourinhã).

A história do "Felgueiras" já me tinha sido contada, muito por alto, pelo pai do noivo. Antigos camaradas da Guiné, tinham estado numa companhia independente, colocada no setor de Teixeira Pinto (hoje Canchungo), na região do Cacheu.

− Fomos e viemos no mesmo navio: para lá no "Niassa", para cá no "Uíge"... − acrescentou o Arlindo, o pai do noivo. (..)

20 de julho de 2023 > Guiné 61/74 - P24491: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (4): Amigos para sempre!

(...) Foi o primeiro encontro da Companhia, depois do regresso da Guiné... Vinte anos depois (!)... Na Anadia, em 1991, o ano em que nasceu a Internet, pelo menos a Internet que conhecemos hoje, em que as pessoas estão familiarizadas com as redes sociais, e usam o telemóvel e o correio eletrónico.

A organização coube ao "Vagomestre", auxiliado pelo "Transmissões"... Não lhes foi fácil descobrir nomes, moradas, telefones e até faxes... E juntar "boas vontades". (Ainda não havia endereços de e-mail, comunicava-se por telefone, telegrama e fax.) (...)


8 de julho de 2023 > Guiné 61/74 - P24459: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (3): Um tiro de misericórdia!


(...) Conheceste-o no Chez Toi, em Bissau. Ou melhor, reconheceste-o, de Tavira, do CISMI, do Centro de Instrução de Sargentos Milicianos. Haviam pertencido, ambos, à Companhia de Instrução comandada por uma figura impagável, um tenente gordinho, que, dizia-se, tinha-se coberto de “honra & glória” no Norte de Angola. Já esqueceste o seu nome, para bem da tua higiene mental.

Em Bissau, estavas hospedado naquela espelunca, de paredes de tabique, que à noite funcionava como boite. (Era assim que, na época, se chamavam, “en français, comme il faut!”, todas as espeluncas da noite, em Lisboa e, onde se bebia uísque marado, "de Sacavém", e havia umas miúdas de minissaia e cueca vermelha, peludas, que te faziam olhos remelosos, e cócegas no pescoço… Tinham unhas compridas, como os felinos, pintadas de um verniz vermelho horroroso. Faziam, pela vida, coitadas. E viviam nas periferias de Lisboa que cresciam então como cogumelos, em arredores como a linha de Sintra, começando na Reboleira.) (...)


(...) A guerra. Essa coisa tão primordial que é a guerra. Que estaria inscrita no nosso ADN, a acreditar nos sociobiólogos para quem o comportamento humano
seria geneticamente determinado.

A guerra é a continuação da evolução por outros meios, dirão os entomólogos, especialistas em insetos sociais. Para eles, a morte de uma ou de um milhão de formigas (ou de seres humanos...) é-lhes totalmente indiferente. Desde que triunfe o ADN, um projecto de ADN musculado, duma "raça" nova e superior... (Onde é que o leitor já leu isto?) (...)

8 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24379 Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (1): À porta do IPO, à espera de Deus e de remédio para as suas obras imperfeitas...

(...) O que é que um gajo faz, das oito às nove, junto à entrada de um hospital, para mais oncológico ?

Aqui, esperas, desesperas, esperas. Que a esperança é a última coisa a morrer, diziam-te na tropa os gajos mais otimistas, os safados dos instrutores, sobretudo dos coirões, velhos, dos cabos RD, readmitidos, que sabiam que já não iam à guerra, nem nunca morreriam docemente pela Pátria. (...)